sábado, 23 de abril de 2022

 por Matilde Castanho

“Vamos acabar com o Estado a que chegámos” – a célebre frase proferida pelo capitão de abril, na madrugada da Revolução dos Cravos, adorna a entrada da Casa da Cidadania Salgueiro Maia, em Castelo de Vide, dando-nos as boas-vindas ao museu que honra uma das principais figuras do Dia da Liberdade. 


Instalada no interior do Castelo de Castelo de Vide, a Casa da Cidadania Salgueiro Maia nasce de uma parceria entre a Câmara Municipal de Castelo de Vide e a Direção Regional de Cultura do Alentejo, cumprindo o desejo expresso pelo militar, natural da vila alentejana.

“Declaro que, por minha morte (…) deixo todos os meus bens à Câmara Municipal de Castelo de Vide, para a respetiva Assembleia Municipal investir num projeto cultural” – Salgueiro Maia, 1989

Com as palavras “liberdade”, “democracia” e “revolução” evidenciadas no decorrer da exposição, o espaço manifesta, declara e comemora os seus dois protagonistas em evidência: Fernando José Salgueiro Maia e os princípios democráticos que estão intrínsecos ao 25 de abril.



O espólio em exibição permite aos visitantes do museu conhecer mais sobre a vida de Salgueiro Maia, entrando em contacto com elementos e itens de diversas fases da sua vida, como a infância, entrada na vida militar, guerra colonial, papel durante a Revolução de Abril e vivências no período pós-revolução.

Enquanto lemos sobre a entrada do eterno símbolo da democracia portuguesa no Movimento dos Capitães, no ano de 1973, ouvem-se as suas declarações, reproduzidas em vídeo, ecoar pelo corredor: “O mensageiro tem de sair imediatamente. Ou então o quartel será destruído”. Inscritas na legenda do expositor, as palavras são claras, “vão reunindo apoios e elaborando o plano para derrubar o regime (…) pela primeira vez, o capitão sabe que está a combater do lado certo”.



De todas as peças expostas, aquelas que mais carregam simbolismo não podiam deixar de ser a famigerada farda, que o capitão envergou nos acontecimentos do dia 25 de abril de 1974, e o megafone com que decretou o cerco ao Quartel do Carmo, em Lisboa, e obrigou à rendição do Presidente do Conselho do Estado Novo.

Assumindo-se como um espaço que retrata episódios recentes da história nacional, a Casa da Cidadania Salgueiro Maia pretende celebrar a liberdade e a democracia, colocando o holofote sobre um “filho da terra”, que desempenhou um papel fundamental na construção dos valores de abril.


Um espaço que faz deferência à identidade e à história portuguesas e homenageia devidamente uma das maiores e mais marcantes figuras contemporâneas portuguesas.

Casa da Cidadania Salgueiro Maia

De terça-feira a domingo | 9h15 – 12h45 & 14h15 – 16h45

segunda-feira, 7 de março de 2022

por Matilde Castanho

Alice Neto de Sousa é o novo fenómeno da poesia portuguesa. Convidada regular do programa «Bem-Vindos», da RTP África, viu o seu poema «Poeta» tornar-se viral nas redes sociais, no início deste ano. Afirma-se como «inquieta por natureza, nas palavras e nas escolhas» e conta-nos que, atualmente, devota o seu tempo a pensar sobre questões sociais e a escrever às prostitutas do metro do Martim Moniz. Falámos com a poeta sobre as suas inspirações, os seus objetivos e as repercussões da sua popularidade na internet.


Fotografia de André Ferreiro | @andre.ferreiro


És bastante assertiva na utilização do tema «poeta» e não «poetisa». Há alguma razão?

Alice Neto de Sousa: Há, apesar de existirem pessoas que não se importam com o termo «poetisa». É um posicionamento meu, porque para mim é uma questão do carácter pejorativo que existe associado ao termo, até historicamente. Pegando no exemplo da Florbela Espanca, que me é mais caro – ela, na sua altura, era chamada poetisa. Mas ela era poeta, então o termo era uma forma de diminuir o que ela era. Para mim, é importante que seja «poeta».


Lembras-te da tua primeira experiência com a escrita - tanto poesia, como prosa?

Alice: Passei pela prosa, não escrevo só poesia. O que me lembro de mais interessante, na minha experiência com a prosa, foi um conto, algures no secundário. Criei um conto chamado «Acredites ou Não», era uma espécie de história de terror, em que as personagens morriam todas e tudo mais. Acabei por fazer também o «Acredites ou Não 2». É das memórias mais recentes de escrever algo em prosa.


Quando é que percebeste que a poesia ocupava um lugar especial no teu coração?

Alice: Não sei, sabes… porque a prosa está quase sempre presente no meu dia-a-dia, também. Eu sinto que a poesia me sai mais natural. É o espaço em que me sinto mais confortável para expressar o que estou a sentir. No entanto, nunca excluí a prosa da minha vida.


Em que momento é que percebeste «eu SOU poeta»?

Alice: Na minha cabeça, mais do que «escrever poesia», eu sou mesmo poeta. Nunca houve um gatilho, sempre foi assim, porque ser poeta não é só pegar num papel e escrever com a caneta e estar ali, em frente à folha. Ser poeta implica todo um leque de atividades anterior à escrita: sentir, pensar o mundo, contemplar, ver… e só depois escrever. Fui sempre formatada para primeiro pensar-me como poeta e só depois dizer que escrevo poesia. 


Há algum tema que sintas que flui mais naturalmente na hora de escrever um poema?

Alice: Depende, acho que os temas me vão encontrando tendo em conta as fases da vida em que estou, o que é que estou a pensar naquela altura… E às vezes até me apanham de surpresa. É mesmo uma questão de estar no mundo e estar a existir. Acho que, possivelmente, agora onde tenho procurado mais inspiração, mais do que no meu interior, é no quotidiano. Tenho pegado mais e reparado mais na cidade de Lisboa, por exemplo, ou nas prostitutas do metro do Martim Moniz, por passar por elas várias vezes. 

Diria mesmo que o que me tem «puxado» neste momento são as banalidades do dia-a-dia, que não são bem banalidades, porque o quotidiano dá-nos muito para expressar o que estamos a sentir interiormente. 

No entanto, eu posso escrever sobre qualquer tema. Se eu sentir que preciso de escrever um poema de amor, eu escrevo um poema de amor. Também as questões sociais são um tema sobre o qual me quero debruçar mais, de uma forma mais consciente.


A poesia para ti é uma forma de terapia?

Alice: Depende… escrever é para mim um momento importante para a minha autorrevelação emocional. É uma maneira que eu tenho de gerir e pensar o mundo. Se é terapêutico? Eu acho que se, por exemplo, uma conversa com uma amiga te fizer sentir bem, não vais questionar se é algo terapêutico – é uma conversa. E um poema é um poema. E a poesia é um espaço onde me sinto bem.


O que é que na Florbela Espanca te encantou?

Alice: Eu não sei se quem me inspira é mesmo a Florbela Espanca, ou o Livro de Mágoas da Florbela Espanca. Aquilo que me fez sentir uma identificação natural por esse livro foi o facto de o ler numa altura em que ainda não sabia muito bem que podia fazer isso – transformar a dor em verso e pegar no que estava a sentir e dar-lhe uma expressão poética.

Quando leio a Florbela Espanca, ela faz isso de uma forma bastante natural. Apesar de talvez um pouco mais melancólica, toda a escrita da Florbela espelhava aquilo que estava a sentir no momento em que peguei no livro. A partir daí, não só me identifiquei e li o livro muitas vezes, mas também pensei «eu acho que consigo fazer isto». 


Fotografias de André Ferreiro | @andre.ferreiro


Como foi o processo de encontrares quem eras – e qual era a tua mensagem – enquanto poeta?

Alice: A minha voz está sempre em construção, eu estou numa eterna procura e até deixo que isso seja um processo mais inconsciente, porque nós estamos sempre a mudar e é difícil definir. Não posso dizer «agora a minha voz vai ser esta», nós vamos sendo moldados pelas situações e pelos momentos onde estamos. 
Esse processo não é algo que eu faça de um modo tão racional assim. Descobrir a nossa voz é consequência de estar no mundo.


Que característica dirias ser necessária existir nos poetas?

Alice: É engraçado (risos)… eu não tenho a fórmula para se ser poeta, não faço ideia! Para mim, o mais importante é sentir – não sei se todos pensam assim, mas é o meu ingrediente fundamental, nessa receita que não existe.


Depois da declamação do teu poema «Poeta» ter ficado viral, qual foi a reação que mais te tocou por parte do público?

Alice: Aquilo que eu não estava à espera que acontecesse foi o poema ter ganho uma grande expressão nas crianças e nas pessoas mais novas. Eu não estava nada a contar com isso! Recebi relatos de mães que punham os filhos a fazer ditados do poema, recebi convites de escolas, para os visitar e falar com os alunos, porque estavam a trabalhar com o poema (a transcrevê-lo, a traduzi-lo…). 

Falei com professores de Português, que me pediam para ir às suas aulas, porque «a poesia tinha ganho uma nova roupagem» e eles queriam motivar os alunos a pensar no tema particular do poema e no palco que a poesia tem. E eu tenho feito entrevistas e aceitado convites, por achar que é importante frisar que neste momento o foco esteve na poesia e essa reação vai ser sempre aquilo de que me vou lembrar. De repente, existe uma esperança na poesia e ela vem dos mais novos. Acredito que deste fenómeno nascerão poetas muito interessantes e isso deixa-me com uma grande felicidade.


Como observas a relação entre o significado que tu colocaste no teu poema e o significado (diferente) que o leitor coloca nas mesmas palavras? Sentes que essa pessoalidade é necessária na poesia?

Alice: Sim! E por isso é que eu não gosto de explicar muito, porque as pessoas agora querem secar um poema e isso tem pouco interesse, sabes? O poema significa algo para mim, mas esse algo não está escancarado: essa é uma parte importante de escrever poesia, deixo sempre um espaço de interpretação à outra pessoa, para ela poder encontrar lugar para ela. 

Por isso é que um poema consegue tocar muita gente, por ser pessoal, mas abrangente o suficiente. Quando escrevemos algo que não é só para nós, temos de deixar espaço para a identificação, e em específico no caso do «Poeta», que toca dores comuns de várias pessoas.


Existe muito a noção que a “boa” poesia tem de ser difícil de compreender. O que dizes às pessoas que sentem que não têm lugar na poesia por causa dessa ideia errada?

Alice: A poesia tem várias faces e pode ter essa face. Eu tenho alguns poemas, que são muito pequenos e muito intrincados, e às vezes as minhas irmãs até me dizem «não percebi nada!» (risos). Porque o objetivo também é esse! E a poesia, podendo ter este lado, é uma faceta interessante de ser explorada por um poeta. 

Podemos ter momentos em que queremos mascarar o que estamos a sentir – e é interessante à mesma -, mas existe um lado na poesia em que aquilo que dizemos é muito mais oral e muito mais claro, simples e nítido. E é importante puxarmos por essa vertente também.
Temos que dar a conhecer todas as faces da poesia, até porque há pessoas que não se identificando com uma, encontrarão lugar na outra. O mais importante é que percebam que existe espaço para quem quiser sentir a poesia.


Quais são os teus objetivos para o futuro?

Alice: Sinto-me a crescer em céu aberto, com toda a gente a ver o que estou a fazer e isso é assustador e interessante! O meu objetivo principal deste ano é pensar as questões sociais como poeta e dizê-las. Não tanto publicar; apesar de estar a receber alguns convites de publicação, esse não é, ainda, o objetivo. É dizer, falar com as pessoas, inquietar com aquilo que também me inquieta. 

Acho que é um caminho importante, porque passamos muito despercebidos no que está a acontecer à nossa volta e há problemas que merecem ter voz e serem pensados. 
Fora dos olhos do público, continuarei sempre a escrever poesia, porque a poesia não é bem um objetivo em si. É uma forma de estar na vida, um propósito. 




quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

por Matilde Castanho

Joana Moreira e Carolina Adães Pereira dão voz ao «Isto Não É o Que Parece», um podcast sobre o mundo da Beleza (e não só!). As duas utilizam a sua experiência enquanto ex-editoras de Beleza nas revistas Vogue e Elle, para nos contar, em cada episódio, alguns segredos sobre a indústria, padrões de beleza e tendências que influenciam o nosso quotidiano. Conversámos com elas sobre o seu percurso, a sua amizade e o papel do «Isto Não É o Que Parece» na comunicação de Beleza em Portugal.



Como surgiu a ideia de criar um podcast juntas?

Carolina Adães Pereira: Eu e a Joana conhecemo-nos na redação da Elle Portugal e travámos logo uma amizade. Quando ela saiu da revista e eu permaneci, a amizade manteve-se e a Joana, no final de 2019, falou-me de criarmos um podcast em conjunto. Eu na altura dizia que não – não por não gostar de podcasts -, mas por achar que não tinha perfil para a coisa.

No início de 2020. voltámos a falar sobre isso, mas existia uma questão muito explícita no meu contrato, relativa à exclusividade, então ficámos a tentar encontrar uma alternativa a este cenário que nos permitisse criar conteúdo juntas. Essa solução surgiu um ano mais tarde, quando encontrámos um nome, encontrámos um conceito e tudo se tornou mais fácil pois, após a revista ter fechado, a questão da exclusividade já não se aplicava.

Como o interesse pela área sempre nos uniu, fez sentido começarmos um podcast sobre aquilo que tínhamos mais em comum – apesar das nossas perspetivas diferentes, como se nota no desenvolver dos episódios. A Beleza era aqui o meio de tudo.

Joana Moreira: Para mim, sempre fez bastante sentido utilizar os podcasts sobretudo para esta área em particular. Sempre achei que havia muita riqueza em explorar esta área na perspetiva de áudio, porque a Beleza é uma coisa super íntima e está muito associada ao próprio modo de consumo dos podcasts – são algo que ouvimos sozinhos.

E nós sempre conversámos muito sobre o tema. Não só era a nossa profissão, mas também, fora do trabalho, estava presente nas nossas conversas. Nós falávamos imenso sobre o assunto e sobre questões que nos apoquentavam e nem sempre tínhamos tempo para desenvolver, porque trabalhávamos as duas no papel (e não tanto no digital) e os próprios constrangimentos do papel deixavam-nos sem tempo, ou espaço para abordar certos tópicos, que acabávamos por canalizar para as nossas conversas, acabando por ficar com aquela sensação de «isto dava um episódio de um podcast!». 

Carolina: No fundo, nós queríamos criar um espaço alternativo para falarmos sobre Beleza, sobre os temas e a forma como não eram discutidos no papel, ou no digital, no nosso país. Sentimos muito a falta desse conteúdo em português europeu, dado que tínhamos acesso a muito conteúdo vindo do Brasil, do Reino Unido, dos Estados Unidos, até de Espanha… e em Portugal não existia. Então nós quisemos ser essa alternativa.



Qual foi o vosso primeiro contacto com a área da Beleza?

Joana: No meu caso, aconteceu completamente por acaso. Eu não tinha qualquer tipo de interesse na área, mas quando fui para a Elle Portugal, enquanto jornalista, por uma questão de acaso, o outro jornalista que estava na equipa era homem e tinha menos proximidade com o tema – é uma vertente onde ainda é evidente que, em Portugal, sofremos muito com os papéis de género – então eu fui destacada para escrever sobre Beleza. À medida que fui lendo sobre o assunto, fui tendo mais curiosidade, querendo saber mais e desenvolvendo o gosto pela temática da Beleza. Hoje em dia tenho uma proximidade muito grande com tema e, efetivamente, gosto muito da área, mas não posso dizer que seja algo que me imaginava a fazer desde sempre – não foi, de todo!

Carolina: Por outro lado, eu sou consumidora de revistas de moda desde muito nova e lembro-me de juntar o dinheiro do almoço para ir comprar a Elle UK, a W, a Daze(risos). E a Beleza, de todas as revistas de moda, é a parte mais acessível - não só em termos de compreensão, mas também em termos de aquisição. Se quisermos estar associados a uma marca, podemos não ter possibilidades para comprar a sua carteira, mas temos para comprar o seu batom, então a Beleza para mim foi a porta de entrada para um universo que sempre me fascinou.

Depois de participar e fazer parte de uma equipa editorial, durante o estágio na faculdade, o bichinho que já existia cresceu ainda mais. No entanto, apesar de não poder dizer que não gostasse de Beleza, porque consumia conteúdos de Beleza e gostava imenso, na altura não me via a produzi-los. No entanto, hoje em dia, já não sei o que fazer se não isto!


Como é que chegaram ao nome «Isto Não É o Que Parece»?

Carolina: Nós sabíamos que as pessoas que nos vissem, às duas, a criar um podcast, nos iam associar à Beleza. Nós queríamos passar logo a mensagem que este podcast não era só aquilo que as pessoas iriam assumir, porque existe o objetivo de falar sobre outros assuntos e outros temas. Não queríamos que a nossa abordagem fosse superficial, queríamos desconstruir e ser a alternativa da comunicação de Beleza que existe em Portugal. Este É um podcast de Beleza, mas a Beleza não é bem aquilo que as pessoas acham que é.

Joana: O próprio nome acabou por ser um reflexo daquilo que eram as nossas conversas antes do podcast. Nós começamos a falar de um lançamento de um produto anticelulítico e damos por nós a filosofar sobre os padrões sociais e as representações que vemos… a nossa conversa escala muitas vezes para uma coisa muito maior que o produto que deu início à discussão. Queríamos tirar essa carga da Beleza, explicar que não é algo fútil, que não é simplesmente algo para ser observado e consumido. Tem uma vertente social que nós queríamos explorar.


Existiu algum tema que, logo à partida, vocês sabiam que teriam de dedicar um episódio?

Joana: Sem dúvida! A questão do greenwashing em especial, porque estávamos as duas a trabalhar como Editoras de Beleza quando a clean beauty se tornou tendência e começou a ser utilizada no marketing e discutimos muito esse assunto. Como nós apanhámos essa fase, sentimos que era algo que precisava urgentemente de ser desmistificado, mesmo que ambas já o tivéssemos feito nos nossos meios, quando trabalhávamos para eles.

Carolina: Nós sabíamos que, mais tarde ou mais cedo, também iríamos falar sobre a nossa própria experiência. Até porque é das perguntas que mais nos fazem!

Joana: Sim! Quando nós lançámos o podcast, a questão da profissão realmente tornou-se bastante óbvia! Porque a Moda e a Beleza são meios muito fechados e elitistas: muito pouca gente tem acesso e não há muita informação sobre eles. E nós, sendo pessoas que não têm qualquer histórico de proximidade com este mundo, sempre quisemos partilhar a nossa experiência e dizer que é possível entrar na área sem um intermediário, para além de explicar como é que o trabalho é feito e quais as suas implicações.

 
 Qual é o vosso processo de preparação para cada episódio?

Carolina: Os nossos processos são um bocadinho diferentes! Nós tentamos não falar antes do episódio, para não existir qualquer tipo de partilha e troca de informação. Não porque não queremos dizer, mas para ser mais instantâneo e orgânico. Nós temos backgrounds diferentes e abordagens diferentes à Beleza…

Joana: …mas uma coisa em que nós concordámos desde o início é que não queríamos ter um podcast guionado. Nós sabíamos que não queríamos um discurso lido, que queríamos produzir uma conversa informada, mas espontânea. Daí nós evitarmos debater antes, para guardar tudo para o momento da gravação.

Carolina: O meu método de pesquisa é, depois de termos o tema, ir ler o máximo sobre o assunto. Seguir o processo que eu tinha, enquanto jornalista, quando me preparava para escrever um texto, ou fazer um pitch de um artigo. Faço exatamente a mesma pesquisa, embora neste caso seja um bocadinho diferente, porque em vez de pegar na pesquisa e ir entrevistar alguém, vou discutir o meu ponto de vista utilizando a informação a que tive acesso. 

Para além disso, estou constantemente à procura de novidades, tendências, notícias, reportagens, programas de televisão… estou sempre atenta – em especial às redes sociais, que são o maior ponto de identificação de tendências e temas atualmente. Perceber sobre o que é que as pessoas estão a falar e como é que elas falam sobre o assunto.

Joana: Às vezes até a investigação acontece previamente à determinação do tema do episódio, por esse motivo! Torna-se tão evidente que temos de falar naquele tema que a pesquisa está praticamente feita à partida. No meu caso, pesquiso artigos online, porque em Portugal não temos muita literatura física e entro no método do jornalismo: confirmar fontes e comparar artigos!


Quais foram alguns mitos que logo à partida sentiram necessidade de abordar e desconstruir?

Joana: Nós sabíamos que íamos querer abordar as questões dos produtos detox, porque éramos confrontadas com o tópico de tempos a tempos, então tínhamos noção que seria uma questão de tempo até ele surgir em discussão. Há, no entanto, uma série de mitos e más práticas que nós identificamos e sabemos que vai demorar algum tempo até que sejam apagados, a expetativa é que nos consciencializemos da mesma maneira que o fizemos com o protetor solar e a fuga aos solários. Acho que há esperança! (risos)


Qual foi o vosso episódio favorito até ao momento?

Carolina: Recentemente, alguns amigos meus disseram que nós tínhamos de parar de insistir nos episódios dos Beauty Clips, mas eu e a Joana sempre escolhemos estabelecer a nossa própria voz, o nosso ritmo e fazer coisas que nós gostamos. E esses são os episódios que eu mais gosto de preparar e gravar, porque a grande influência para mim e para a minha geração eram os videoclips. Um videoclip era um grande evento! Eu compreendo a crítica, mas são daqueles episódios que nós fazemos porque também nos trazem satisfação a nós!

Joana: O greenwashing sempre foi uma questão que me interessou e deu-me muito gozo preparar esse episódio, ainda que a dinâmica seja diferente e menos emocional que quando falamos de um Beauty Clip! Nós gostamos dos episódios sempre por motivos diferentes e escolho o episódio em que falamos sobre o greenwashing pelo processo de investigação!

Carolina: Em termos de preparação, o episódio que mais gostei de preparar foi relativo às Marcas de Beleza de Catálogo, porque sempre tive muita curiosidade nesse tipo de negócios e em toda a desconfiança com que são vistos. Foi o episódio em que dediquei mais tempo à preparação e foquei-me mesmo muito, porque queria compreender a relação entre a desconfiança que existe e o lucro e predominância que conquistam mesmo assim. A saga que realizámos sobre o Youtube também foi muito interessante, porque foi o meu primeiro contacto com este universo da Beleza. 

No entanto, o episódio que tivemos mais feedback e foi mais emocional para mim, foi o Especial De Verão: Corpos de verão, programas detox e outras loucuras, porque enquanto jornalista sempre fiz de minha função quebrar esses estereótipos e, vendo que no primeiro ano em que não estava no ativo, o jornalismo de moda e beleza deixou muito a desejar, foi como se, depois de tanto trabalho a tentar construir uma voz de mudança e inclusividade na indústria, se tivesse perdido tudo.

Joana: Foi um episódio um pouco catártico, com um tema delicado. E, como tanto eu e Carolina sempre nos pautámos por ser agentes de mudança, tornou-se inevitável que a nossa reação tivesse um bocadinho mais de paixão, mas penso que também faz parte!

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

por Matilde Castanho

«Eu percebo que quanto mais tempo passo a olhar para um ecrã, mais desconectada me sinto do meu próprio corpo e daquilo que se passa mesmo à minha frente», confessa Kendall Jenner, membro do clã Kardashian com o título de supermodelo mais lucrativa da indústria, num vídeo publicado pela revista Vogue em maio de 2021.


Estima-se que o número global de utilizadores ativos de redes sociais e plataformas online ronde os três biliões e meio. Em Portugal, mais de cinco milhões de utilizadores confessam recorrer a diversas redes sociais várias vezes por dia e, de acordo com a Comissão Europeia, apenas 5% dos jovens portugueses não marcam presença em plataformas digitais.

A influência das aplicações e redes sociais na saúde mental dos seus utilizadores é, atualmente, um facto irrefutável, levando à necessidade de criação de diversas políticas e providências que protejam o bem-estar da comunidade que frequenta as diferentes plataformas. Em 2019, o Instagram anunciou que tomaria medidas para salvaguardar os usuários com idades inferiores a 18 anos, restringindo o acesso destes a conteúdos que promovessem a perda de peso e/ou cirurgias estéticas, bem como publicações comerciais que tivessem por base a calúnia, ou informações duvidosas. Esta medida surgiu após críticas da atriz e ativista feminista Jameela Jamil ao comportamento de diversas influencers e celebridades, que se serviam da rede social para vender produtos dietéticos controversos e contestados pela comunidade médica.

Dois anos mais tarde, a Facebook Inc., empenhada na criação de uma extensão da plataforma Instagram concebida para apelar a crianças de 13 anos ou mais novas, lançou um comunicado a informar que esta iniciativa havia sido interrompida por tempo indeterminado, devido a várias questões relacionadas com o efeito da aplicação no crescimento emocional e saúde mental dos mais novos. Críticas apontadas à companhia afirmam que os efeitos do Instagram no bem-estar físico e psicológico dos adolescentes são de conhecimento da empresa, bem como as várias dificuldades que esta já apresenta ao tentar combater a desinformação e o discurso de ódio presentes no Instagram, Facebook e WhatsApp.

No entanto, e apesar das condicionantes e restrições, concluiu-se, após um estudo da Fundação 5Rights, que serviços prestados pelo TikTok, Instagram e Facebook permitem que crianças visualizem conteúdos que glorificam e romantizam o suicídio, a automutilação, os distúrbios alimentares e tópicos sexuais, bem como campanhas de marketing abusivas desenhadas à sua medida. As crianças envolvidas na pesquisa também confessaram que as redes sociais são causadoras de experiências negativas e perturbadoras, no que envolve as suas relações interpessoais e autoestima.

 

A relação entre as redes sociais e os jovens

Sendo uma das principais plataformas mediáticas, as redes sociais são responsáveis por estabelecer e consolidar diferentes padrões estéticos, económicos e ideológicos, que, ao serem aceites por uma maioria de indivíduos, se tornam parte do zeitgeist e dão identidade a uma determinada geração.

A validação que uma elite de criadores de conteúdo obtém ao partilhar o seu estilo de vida faz com que uma comunidade muito grande de seguidores e consumidores desejem, em vão, pertencer ao status quo, copiando as tendências que observam – produtos de maquilhagem, procedimentos estéticos, estilos de vestuário, etc… - com a expetativa de conseguir pertencer a essa realidade alternativa e utópica.

«Aquilo não é uma pessoa, é o que uma pessoa está a querer passar. Não há pessoas reais na Internet – isto é uma coisa que nos custa a acreditar, porque nós estamos lá e nós sentimo-nos reais porque somos verdadeiros na nossa vida, mas não há pessoas reais na Internet», lembra Susana Garcia, 23, após confidenciar que, mesmo estando consciencializada para a falta de autenticidade nas redes sociais, sente que ceder à tentação de procurar semelhanças é inevitável.

A comparação surge, assim, como um dos principais problemas na vida dos jovens consumidores de conteúdo partilhado online, «o problema aqui não é a comparação por si só, mas é o que ela vai acarretar - a questão da autoestima. Temos os jovens a olharem para uma vida que até gostariam de ter e não têm. Isso vai afetar a forma como olham para si mesmos e a forma como se sentem», afirma Petra Tavares, psicóloga clínica.

Mesmo a nível químico, é possível afirmar que os níveis de dopamina no cérebro humano oscilam após a visualização de um novo like, ou de um novo seguidor. Esta indicação, dada pelo neurotransmissor associado ao prazer e motivação, torna possível concluir que, atualmente, grande parte da população estabelece com as redes sociais uma relação de adição comportamental, «o vício acaba por nos retirar do estado presente e deixa-nos em estado automático. Estamos tão focados naquela coisa que perdemos a noção do tempo e de tudo o que acontece ao nosso redor e acabamos por não estar presentes em momentos da nossa vida que poderiam ser importantes. Eu luto contra isso, mas às vezes vou ao Instagram só responder a uma mensagem e dou por mim a fazer scroll durante imenso tempo», expressa Afonso Parreira, 21.

Carolina Madaíl, psicóloga e psicoterapeuta, recorda também que as redes socias têm contribuído para uma maior sensação de solidão partilhada, existindo uma fenda entre aquilo que é vivido e aquilo que corresponde à realidade, ou à interação presencial, a profissional de saúde lembra que «enquanto adultos temos, tendencialmente, mais ferramentas para diferenciar o que acontece entre o mundo real e o mundo virtual. Se para os adultos este pode ser um exercício já desafiante, para os jovens, o desafio é maior. O que é partilhado nas redes corresponde ao lado mais agradável e bonito da nossa vida e, não se partilhando o que é menos agradável, pode haver uma ideia falaciosa de que a minha vida tem problemas ou dificuldades que não são comuns às outras pessoas. Isso pode contribuir para a perceção de inadequação ou de falha».

Tendo disponível uma realidade alternativa, muitos utilizadores optam por despersonalizar a sua identidade dentro das redes sociais, dissociando quem são quando estão do outro lado do ecrã. A possibilidade de ser alguém anónimo traz consigo uma sensação de liberdade e escape que permite ao indivíduo agir de maneiras que não se verificariam de outro modo, «quando estava na adolescência, comecei a perceber que várias pessoas do meu nicho me diziam que eu parecia uma pessoa completamente diferente quando estava por trás do ecrã. Hoje em dia, eu acho que já não se verifica. Não sei se, na altura, era por medo, ou vergonha, ou se havia alguma coisa que me impedia de ser eu próprio nas redes sociais», recorda Afonso.

No que diz respeito aos padrões de beleza, é importante realçar o papel dos filtros na perceção que os jovens vão formando à cerca do seu próprio corpo, verificando-se que, para muitos, tornou-se impossível publicar uma fotografia sem que esta passe primeiramente por um meticuloso processo de edição que lhes permita ser mais parecidos com o ideal de beleza que estabeleceram para si, «Isto [a questão dos filtros] afeta sobretudo os jovens, porque eles estão naquela idade de quererem se inserir num grupo, de quererem pertencer a um determinado lugar. Então, por quererem-se enquadrar tanto, acabam por começar a querer ser algo que na realidade não são», explica Petra Tavares antes de revelar que o excesso destes estímulos pode levar ao despontar da ansiedade, funcionando como gatilho.

 

O tabu da saúde mental, as redes sociais e a quarentena

Por outro lado, o papel das redes sociais foi essencial durante a gestão da pandemia de Covid-19. Não só permitiu a difusão de informação instantânea através de diferentes canais, como também auxiliou as populações confinadas a conseguirem manter o contacto com o mundo exterior. A internet permitiu-nos, muitas vezes, conservar as nossas rotinas, profissões e conexões, alargando também os nossos hobbies e áreas de interesse.

Após o primeiro confinamento em Portugal, implementado no dia 12 de março de 2020, a discussão sobre o conceito de saúde mental chegou à praça pública através das redes sociais. Para Petra Tavares, «antes da Covid-19, não existia uma comunidade tão grande de psicólogos nas redes socias e esse maior acesso a informação ajuda a combater o tabu, até porque existia uma imagem de inacessibilidade do psicólogo e hoje em dia há a noção que ir ao psicólogo é a mesma coisa que ir ao dentista, ou ao médico. Eu tenho uma situação que preciso que seja resolvida, este profissional de saúde é especializado nessa questão, então vou recorrer a ele».

Contas como @apsicologiaamiga, @carolinamadailpsicologa, @pedrocoutinhopsicologo, @apsicologia.pt e @su.psi_trabalho (entre outras) chegaram à plataforma Instagram, publicando conteúdo informativo sobre as implicações da saúde mental em diversas áreas do quotidiano. «Razões pelas quais a ansiedade te leva a pedir constantemente desculpa», «Como te podes sentir depois de uma sessão de terapia?» e até «Conheça os sinais de exaustão emocional» são alguns dos títulos dos posts destes criadores de conteúdo e profissionais de saúde, que dão a conhecer os benefícios do seu trabalho aos seguidores e potenciais clientes. «Começa a ser uma coisa que aparece no feed. Começas a pensar, começas a refletir – O que é que isto me diz na minha experiência? E nas experiências que eu tenho à volta? Comecei a perceber que de facto a saúde mental tem muitas nuances e que até a tua ansiedade já é um problema de saúde mental que convém que tu trates e cuides», desabafa Susana, destacando a importância que a presença desta comunidade nas redes sociais teve na sua experiência pessoal.

Caminhando, desta forma digital, na desconstrução do tabu que a temática ainda acarreta consigo, num país em que o suicídio é a segunda maior causa de morte entre jovens dos 15 aos 34 anos, pretende-se que o debate seja realizado e que toda a gente possa dar o seu testemunho. Afonso Parreira, que afirma ter declarado, durante o isolamento social de 2020, as redes sociais como o seu refúgio, acrescenta também que «foi muito através do telefone e delas [plataformas digitais] que eu comecei a entrar em contato com o que era a saúde mental, porque muitas pessoas que eu seguia, e que acabei por começar a seguir, por verem que a quarentena afetava tanto a saúde mental daqueles ao seu redor, tinham o ímpeto de querer ajudar e de querer explicar e tentar fazer com que as pessoas que estivessem na mesma situação que elas percebessem mais sobre o assunto».

Estando a lidar com a primeira geração a crescer com uma presença constante nas redes socias – e sem formação e/ou apoio que a ajude a navegar este novo universo -, a aposta na informação o e na educação revela-se a melhor arma que a juventude pode possuir, quando se trata de manter uma relação equilibrada com o mundo online. Carolina Madaíl reforça a importância do trabalho da comunicação social e da Ordem dos Psicólogos na alteração do paradigma, «progressivamente, é possível assistir a um maior conhecimento sobre saúde mental e sobre o papel da psicologia na sociedade. É notória a maior disponibilidade e o menor estigma dos jovens em procurar ajuda, não só em situações limite, até porque saúde não significa apenas ausência de doença, mas também uma potencialização do nosso bem-estar».

No entanto, quando questionados relativamente ao acompanhamento que tiveram, durante a infância, no que diz respeito à influência redes sociais no seu bem-estar, os jovens sublinham a falta de preparação dos programas curriculares, «nós não tivemos [formação]. Fomos literalmente atirados. Começámos a crescer e começamos a ser expostos a tudo. Primeiro foi o Facebook, depois veio o Twitter, depois o Instagram, depois aquele e depois outro, nós fomos muito expostos a isso e começou-se a fazer muito dinheiro muito depressa e só depois é que vieram as estruturas que controlavam essas plataformas» explica Susana sem hesitar, enquanto Afonso acrescenta que: «as escolas nunca ensinam tudo e a educação em Portugal está muito retrógrada – Tecnologias de Informação ensinam-te a trabalhar com o Microsoft Office, mas não te ensinam regras básicas de como existir ao pé de um ecrã. Nunca houve informação concreta e precisa de como nos devemos proteger na Internet e isso obriga-nos a sermos autodidatas».

 

Educação para uma utilização saudável das plataformas digitais

Apesar de todas as consequências negativas que podem resultar de uma utilização danosa das redes sociais, estas continuam a ser uma ferramenta muito poderosa no que toca à manutenção de relações, partilha de experiências e até dinâmicas da vida profissional. Deste modo, é importante saber como agir em determinadas situações e como cuidar da nossa presença no universo digital, procurando ajuda caso necessário.

Para Petra Tavares, o primeiro passo a tomar por parte do paciente (em conjunto com o seu psicólogo, ou terapeuta) passa por «fazer primeiro uma avaliação – até que ponto é que isto está a ter um impacto? É a causa, estamos perante um vício? Ou é um efeito de outra coisa? Temos de perceber primeiro até que ponto o problema se manifesta», afirmando ser comum existir quem busque ajuda devido a distúrbios de ansiedade, ou problemas com autoestima e procrastinação.

O papel dos progenitores na criação de hábitos digitais saudáveis revela também ser indispensável, «o mais importante será que, desde cedo, possa haver espaço na dinâmica familiar para uma comunicação saudável – respeitando os limites e a individualidade do filho, ao mesmo tempo que se constrói um espaço seguro para falar de emocionalidade e acompanhar, minimamente, o uso destas plataformas e suas consequências» reflete Carolina Madaíl, exaltando que cada um possui o seu conceito de saudável e deve refletir sobre quais os benefícios e prejuízos que estes espaços virtuais manifestam no seu dia-a-dia. A ajuda profissional (quando necessária) deve, no entanto, funcionar como um espaço seguro que pode encaminhar e vigiar tudo o que envolve este tipo de comportamentos.

A definição de timings torna-se numa das táticas mais produtivas e recomendadas por profissionais, sendo aconselhado aos jovens «fazerem essa monitorização, não pegar logo no telemóvel mal acordam, ter hábitos matinais que ajudem a desconectar um pouco. Saberem que o mundo real é mais importante que o mundo virtual» e também o conceito de jardins digitais surgiu na discussão, «eu não tinha a noção de cuidar do meu jardim digital, ou seja, de seguir quem me trazia conteúdos positivos e de me afastar de quem não tinha conteúdos positivos. Também tem que haver higiene nas redes sociais e eu não posso seguir só porque conheço, não posso ficar com pessoas nos meus seguidores só porque sim. Não há mal nenhum em bloquear, em eliminar, em retirar», revela Susana Garcia relativamente aos seus hábitos nas redes sociais.

A criação de um espaço resguardado, que permita aos jovens explorar as suas emoções na totalidade, não precisando de nenhum mecanismo de escape para momentos de zanga, ou tristeza é também algo a destacar, tento em conta que, como Carolina Madaíl aponta, «o scroll infinito nas redes sociais tem sido cada vez mais reportado enquanto “sintoma” de algum estado emocional. E nesse sentido, as redes sociais podem tornar-se um vício – para me desligar de algo que julgo não conseguir suportar ou processar».

Por último, ter o conhecimento que a individualidade de cada um estará refletida na sua presença no digital. O caminho de cada um é personalizado e construído pelo próprio, não sendo necessário ser perfeito, ou minuciosamente controlado. «É sempre um terreno inexplorado, mesmo que haja imensa gente que já lá está, vai sempre existir uma pessoalidade nas nossas plataformas e o utilizador vai ter que descobrir o seu caminho. E há muita ajuda que podemos ter nesse sentido, até porque as redes sociais conseguem te dar respostas para quase tudo, existe sempre alguma informação que pode ajudar a criar esse caminho de uma forma equilibrada», conclui Afonso Parreira.

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