Posts about: Literatura

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

por Matilde Castanho

 «Enviei mensagem à Inês a dizer “Olha, estava a pensar criar um clube do livro, mas acho que é trabalho para duas pessoas, o que achas?” e ela aceitou na hora».

Assim surgiu o The Characters Club, um clube do livro digital fundado em 2022 por Inês Mota e Carolina Nelas. Com uma presença magnética nas redes sociais e existência de salas de discussão sujeitas a uma lista de espera de mais de 6 meses, o TCC assume-se como um clube de leitura diferente daquele a que estamos habituados a conhecer no universo digital. A sua essência familiar e intimista marca o ritmo para um dos próximos grandes sucessos nas comunidades literárias portuguesas.

Conversámos com a Carolina e com a Inês, de forma a conhecer melhor o seu novo projeto.


Como é que surgiu a ideia de formar um clube de leitura e porquê fazê-lo juntas?

Inês: Foi uma belíssima coincidência (risos). Eu tinha como objetivo de início do ano, ou aderir a um clube do livro que fizesse sentido para mim, ou criar um. Relativamente à primeira opção, nunca me senti como um membro de um clube naqueles que experimentei e, portanto, teria de começar o meu. Seria para começar no segundo trimestre do ano e pensei logo que, para fazer sentido e pela exigência, teria de ter outra pessoa envolvida – pensei na Carolina, ainda estava o projeto no papel. Quando ia começar o clube, tive um trimestre péssimo e achei “talvez não estivesse destinado”, “não é, de todo, a altura certa” e deixei o projeto na gaveta.

Carolina: Eu, não tendo uma história de hábitos de leitura e sendo muito diferente da Inês nesse aspeto, de há uns anos para cá comecei a ler muito mais e, neste verão senti que mais gente também o estava a fazer. Via mais gente com livros, kindles, kobos… em vez de estarem no telemóvel. E tinha esta ideia guardada, mas nessa altura era apenas uma ideia, até eu assumir “não, é agora!”. Mandei mensagem à Inês a dizer que estava a pensar fazer aquilo, mas achava ser trabalho para duas pessoas. Ela aceitou na hora e descobrimos que tínhamos ideias semelhantes a título de conceitos – pretendíamos algo mais familiar, íntimo e, ao mesmo tempo, algo diferente que precisámos de descobrir o que seria. Quanto mais fomos falando, mais percebemos estar em sintonia.

Como funciona a dinâmica do The Characters Club?

Inês: Aquilo que nós tentamos que aconteça é: criar aquilo que gostávamos de ter encontrado. Tentamos preservar o ambiente familiar que existe e que nos dá a sensação de estarmos mesmo num clube. Eu conheço os membros do TCB e eles também se conhecem entre si, essa dinâmica é diferenciadora em relação a outros clubes, que se assemelham mais a um fórum de entusiastas de leitura – e tudo bem, se for isso que estão à procura!

Nós temos a dinâmica de discussões de sala, através do Discord, sobre o livro escolhido. No final de cada mês fazemos uma discussão aberta, onde podemos falar com spoilers, podemos dar a nossa apreciação, etc… Depois, existe também uma sala mais livre, onde as conversas são aleatórias, toda a gente fala daquilo que quiser, há sugestões, recomendações, apresentações. Acaba por ser onde os membros se conectam uns com os outros.

Carolina: Nesse aspeto, o facto de nós abrirmos novas vagas no início do mês contribui para essa dinâmica, ou seja, não há pessoas constantemente a entrar. Entram pessoas novas no início do mês e têm o seu momento para se apresentarem e criarem ligações.

Para quem ainda não conseguiu uma vaga, porque temos uma lista de espera que preserva esta familiaridade, temos a dinâmica que oferecemos através do Instagram – lá revelamos o livro, promovemos interações com perguntas, sugestões e conteúdos diversos. Deste modo, as pessoas que preferem este ambiente mais geral, têm esta opção. Assim, conseguimos abranger estes dois tipos diferentes de público.

Como é o processo de escolha do livro do mês?

Inês: Começando pelo processo de escolha do livro – para já, aquilo que tem resultado para nós é, alternadamente, cada uma faz uma sugestão, sendo que nunca escolhemos prosseguir com um livro que não tenhamos ambas lido.

Carolina: Até agora ainda não aconteceu, mas, por exemplo, eu não vou sugerir um livro que a Inês detestou. Nesse caso, avançamos com outra proposta. De facto, temos de ter lido as duas – e nós temos experiências de leitura muito diferentes -, mas pensamos sempre que seja um livro que…

Inês: … tenhamos as duas gostado, ou com um padrão mínimo de qualidade para as duas, para também pudermos sugerir a leitura com propriedade! (risos)

Carolina: Ou até um que consigamos reconhecer que “ok, eu não gostei, mas consigo perceber porque é que as pessoas gostam”. Tentamos também trazer temas e estilos diferentes, apesar de ainda só estarmos no terceiro mês de clube de leitura, essa diversidade é bastante importante.


O vosso Instagram é uma ferramenta muito central, como organizam o trabalho feito e partilhado através dessa plataforma?

Inês: Nós trabalhamos à distância, logo toda a gestão do projeto é remota. Para já, tem funcionado bastante bem, porque a meu ver ambas temos princípios e formas de organização minimamente alinhados. Os conteúdos são discutidos entre as duas, temos uma base de dados onde vamos trabalhando colaborativamente. Vamos deixando sugestões, comentários, calendarizações, tudo aquilo que seja necessário. A ideia é termos um espaço centralizado onde possamos trabalhar todo o conteúdo e ter uma ponte para ver o que já está feito e o que falta fazer.

Carolina: Tanto eu, como a Inês trabalhamos em Marketing, por isso já temos ritmos muito automatizados e até alguns vícios de profissão. Trabalhamos com calendários editoriais, feitos com bastante antecedência, para garantirmos que a qualidade que pretendemos se mantém independentemente dos nossos horários. Há rúbricas que temos – como as playlists, o casting – que sabemos que vamos incluir, pelo menos nesta fase, então acaba por ser bastante mecânico aquilo que cada uma faz. Em seguida, surge o espaço para outras publicações e conteúdos não-planeados, que também marcam a nossa dinâmica.

Sendo que há alguns bookstagrams e clubes de leitura nas redes sociais, pensaram numa forma de se destacarem dos restantes?

Carolina: Nós queríamos que este clube do livro não fosse só sobre livros, que também misturasse algumas paixões que nós também temos – as viagens através de bibliotecas e livrarias, a moda, a música (as nossas playlists que têm o cunho pessoal da Inês, que já tinha o hábito de as criar para si mesma). Acaba por ser este complemento de personalidade que traz conteúdo mais diferente e mais completo e não tão limitado apenas à leitura.

Inês: Aquilo que nos ajuda é que, como o nosso foco é ter um clube no qual orbitam coisas incríveis, como uma conta de Instagram e outras plataformas onde podemos falar sobre livros, sobre nós e sobre os nossos gostos, isso faz-nos ser mais diferenciadoras nos conteúdos.


Como tem sido o feedback?

Carolina: O número de pessoas na lista de espera não para de crescer e é tão assustador, como incrível!

Inês: Fico sempre arrepiada quando vou espreitar o nosso formulário! Deixa-me mesmo entusiasmada e ao mesmo tempo penso “será que estamos à altura para receber tanta gente?”.

Pessoalmente, já recebi algum feedback dos membros do clube, a que peço para que sejam mesmo honestos e digam aquilo de que sentem falta, para que possamos evoluir! Tenho ouvido aquilo que eu mais queria ouvir. Dizem-me que sentem que fazem parte de uma experiência, que os pormenores com que os recebemos e envolvemos têm resultado muito bem.

Carolina: Reparo que, quando as pessoas falam entre si e recomendam um autor, ou um livro, não existem julgamentos. Surgiu, há uns tempos, uma discussão sobre uma autora que uns adoravam e outros não eram admiradores e ambos os lados diziam gostar de ter um espaço para falar livremente sobre as suas opiniões. É ótimo existir uma comunidade onde as pessoas estão confortáveis e à vontade, porque estamos apenas a falar de livros.

Acham que os clubes de leitura têm a capacidade de tornar a leitura numa tendência?

Inês: Para mim, em geral, entusiasmam-me muito estas iniciativas. Mesmo que existam outros clubes, com os quais eu não me identifiquei, é incrível saber que existem clubes literários em Portugal com várias iniciativas e milhares de membros. Acaba por ser trazer os livros de volta ao quotidiano e ao entretenimento e encaixá-los numa realidade que é digital. Move este poder das histórias até um contexto muito atual e acho isso fascinante, porque sou leitora desde miúda e, para mim, os livros nunca perderam a magia.

Carolina: Apesar de concordar, tenho também outra perspetiva: neste momento, acho que, em Portugal, quem pertence a estes grupos são pessoas que já gostavam de ler, ou já tinham hábitos de leitura. Acho que, a longo prazo (ou médio prazo), será possível trazer a leitura para os mais jovens e para aqueles que não têm hábitos de leitura. Por isso é que nós também, apesar de termos um livro do mês, fazemos mais sugestões. No entanto, para quem não lia nada, se agora lê um livro por mês, já é um progresso extraordinário. Acho que Portugal está, ainda, um pouco obsoleto a nível literário e editorial e nestas plataformas estamos a chegar a pessoas que já estavam neste universo. Mas funciona como incentivo para as restantes? Sem dúvida.

 


terça-feira, 28 de junho de 2022

por Matilde Castanho

Ricardo Reis caminha sobre a calçada portuguesa, percorrendo a mesma Lisboa que, dois séculos antes, viu nascer o amor de Blimunda e Baltasar. Cumprimenta, com um breve aceno do chapéu, o velho senhor que intercepta o seu caminho, sem saber que diante de si está Carlos da Maia, outrora um jovem destroçado.

A paisagem que o seu olhar alcança revela-lhe o oceano de onde os portugueses haviam, um dia, partido, preparados para serem imortalizados como heróis de uma epopeia. Contemplando o cenário, pergunta-se se os peixes daquelas águas ainda se recordam das palavras que Santo António lhes dedicou.

Numa sala de aula distante, os livros estão abertos e os protagonistas preparam-se para contar as suas histórias a uma nova geração de estudantes portugueses. Todavia, a questão que se levanta permanece intocável há décadas: onde estão as autoras portuguesas e porque é que não têm lugar nos programas curriculares?


Os Programas e Metas Curriculares elaborados tendo em conta os objetivos de aprendizagem relativos à disciplina de Português – que acompanha os jovens desde o seu primeiro ano de escolaridade até ao 12º - propõem parâmetros pedagógicos específicos no que diz respeito às áreas da oralidade, gramática, escrita e educação literária.

Para além das avaliações obtidas em regime de frequência, os estudantes portugueses são também submetidos às classificações de quatro provas nacionais distintas, durante o seu percurso académico, sendo elas as provas de aferição, no 2º e 8º ano, e os exames nacionais realizados no 9º e 12º.

Na sua totalidade, são nomeados cento e dezoito autores no decorrer da Lista de Obras e Textos que direciona e orienta o padrão referente à leitura. Nomes como Camilo Castelo Branco, José Saramago, Fernando Pessoa e Eça de Queiróz são mencionados frequentemente, devido à sua contribuição e relevância no setor literário português, sendo importante ter em consideração que “os programas escolares e a sua lecionação são a mais importante forma de institucionalização da literatura e da elaboração de uma espécie de cânone de autores clássicos – que são considerados clássicos justamente porque são dados na classe – que são de leitura aconselhada ou obrigatória em vários graus de ensino”, como explica Ana Luísa Vilela, professora na Universidade de Évora, doutorada em Literatura Portuguesa.

Por outro lado, apenas vinte e quatro escritoras do sexo feminino são referenciadas nestes mesmos programas curriculares, o que corresponde somente a 20% do total. Sophia de Mello Breyner e Alice Vieira apresentam uma maior presença, seguidas de Matilde Rosa Araújo, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres e Luísa Dacosta. “Eu lembro-me de chegar à secundária e pensar nessa desigualdade, porque sempre me senti mais atraída por literatura de autoria feminina e tinha de a procurar fora das propostas que surgiam na escola. É triste, enquanto estudantes e mulheres portuguesas, não termos alguém [no programa curricular] com quem nos possamos identificar e que nos possa representar [no mundo literário], confessa Beatriz Lopes ao recordar a sua experiência enquanto aluna de Português.

A ausência de obras de literatura feminina de referência nos currículos da disciplina pode ser explicada por várias razões, entre as quais a distribuição e organização da sociedade portuguesa até ao século XX – que afastava as mulheres do exercício da arte e cultura –; e a existência de critérios patriarcais e obsoletos (conscientes ou não) no processo de seleção e escolha.

“É evidente que a autoria feminina existiu desde sempre, mas também é evidente que a sociedade portuguesa foi – e ainda é – regida por um sistema patriarcal. Isso implica que quem estabelece o cânone privilegie as obras daqueles que têm mais acesso à cultura e com quem se identificam mais. E quem tem mais acesso à cultura, quem sempre teve mais acesso à cultura, foram os homens”, afirma Ana Luísa Vilela, continuando “tanto quem diz que os programas são feitos à luz de uma ideologia patriarcal e tradicionalista, como quem diz que as mulheres não tiveram acesso à cultura, tem razão. Da Idade Moderna para cá, as mulheres mais cultas eram aquelas que estavam livres da tutela masculina, ou por pertencerem ao clero, ou por serem viúvas”.

Para Ana Cabete, professora do Ensino Secundário, “A prevalência de autores masculinos europeus de pele clara reflete a realidade histórica da Europa e, sobretudo, do nosso país. Até ao 25 de Abril de 1974, a larga maioria da população portuguesa era analfabeta, excluindo-se deste analfabetismo sistémico os homens brancos pertencentes a famílias financeiramente privilegiadas. Neste contexto, é natural que a maioria dos autores até ao século XX, selecionados para o programa de Português, sigam este padrão. Já não considero tão consensual a escolha de autores homens e brancos dentro do cânone do século XX e XXI. Por exemplo, a poesia portuguesa atual é escrita maioritariamente por mulheres e esse facto ainda não se reflete nos manuais escolares. O mesmo sucede com as obras escritas por minorias. Como explicar este facto? Conservadorismo e inércia, talvez. Mudar um padrão é um processo lento e moroso”.


Movimentos literários e temas recorrentes nas obras

Várias escolas literárias estão representadas nos programas curriculares. A Era Medieval marca a sua presença através da poesia trovadoresca, dos relatos de Fernão Lopes sobre a vida na Corte portuguesa e das sátiras de Gil Vicente. O período Clássico é estudado em Luís de Camões (Classicismo) e Padre António Vieira (Barroco); e a Era Moderna tem como embaixadores Alexandre Herculano, Almeida Garret e Camilo Castelo Branco, inseridos no movimento do Romantismo, Eça de Queiróz enquanto representante do Realismo, e Fernando Pessoa como cara principal do Modernismo.

A forma como o programa está organizado, apesar de ser lógica e em sequência, relega os escritores atuais para as últimas aulas do ano letivo, quando professores e alunos já estão menos disponíveis e pressionados pelo cumprimento do programa. A este propósito, é óbvio que os programas são de uma ambição desmedida e paralisante e não propiciam qualquer margem para a discussão de outras obras que não as inscritas no rígido cânone. Esse é um dos grandes problemas do ensino, hoje em dia”, reflete Ana Cabete, defendendo que considera que os escritores dos séculos XX e XXI se revelam excelentes oportunidades de partilha e mudança na sala de aula.

A nível de temáticas, é frequente (e quase exclusivo) a ação estar centrada nas classes mais altas das sociedades portuguesas das diferentes épocas. A perda do estatuto de leitura obrigatória d’O Memorial do Convento, por José Saramago, separou os alunos duma narrativa focada em personagens pertencentes ao povo – suas dinâmicas e problemáticas – e, a par com o afastamento de Felizmente Há Luar, por Luís de Sttau Monteiro, resultou na ausência de duas personalidades femininas de grande relevo e importância literária e cultural: Blimunda e Matilde de Melo. “As personagens femininas que nós encontramos ou são retratadas como bruxas, más, o fruto de todo o pecado – numa abordagem totalmente pejorativa -, ou então são personagem sem dimensão nenhuma, que aceitam as condições do seu destino e não procuram evoluir ao longo da história. E essas duas alternativas não servem. Dêem-nos algum crédito, deixem-nos saber as batalhas das nossas antepassadas, dêem-nos alguém para ler que nos vá inspirar a ser uma boa mulher”, propõe Beatriz.

Apesar da qualidade das obras selecionadas não estar em discussão, sabendo que estas são o resultado de um trabalho intelectual e literário de valor inestimável na construção da identidade e cultura portuguesa, a necessidade de ver retratados outros grupos sociais, outros heróis e outros géneros literários mais apelativos às gerações mais novas (como o thriller e a ficção científica) surge várias vezes em conversa. Para Ana Cabete “os escritores, homens brancos e privilegiados, escreviam sobre os conflitos existentes dentro da sua esfera de ação: a sociedade portuguesa era, de facto, estratificada e sem mobilidade social. Perpetua-se, assim, através da literatura, uma ideia equivocada do país e aumenta a distância entre o leitor e as problemáticas abordadas nos textos estudados”.

 

Falta de diversidade nos currículos e consequências

O domínio masculino (branco e heteronormativo) do programa curricular da disciplina de Português faz levantar, entre outras, a questão da representatividade na sala de aula. As realidades temporais distintas, aliadas ao privilégio sistémico de que os autores gozavam, torna frequente a existência de estereótipos e preconceitos nas páginas das obras em estudo.

Em 2021, a investigadora Vanusa Vera-Cruz Lima chamou à atenção para a existência de passagens de teor racista n’Os Maias, livro publicado em 1888, recomendando que a leitura em sala de aula devia, por isso, incluir um comentário de teor pedagógico que tenha como objetivo desconstruir e contextualizar os excertos em questão. “Nós devemos ler as obras tendo em atenção o contexto em que foram escritas, mas numa aula de adolescentes – ou pré-adolescentes – é difícil de explicar que não há reflexos de preconceitos, quando os há. Não podemos julgar o passado com os valores do presente, mas é evidente que devemos dizer aos alunos que estejam atentos. A arte deve ser observada com olhos estéticos: contextualizando-a, compreendendo-a e sabendo que o presente está mais adiantado que o passado e, por isso, podemos não ser censores, mas paternalistas”, defende Ana Luísa Vilela.

A representatividade é atualmente discutida em larga escala como sendo um fator essencial na educação dos jovens, com grandes companhias mediáticas a fazerem alterações nos seus conteúdos e colocarem avisos de gatilho quando certos limites são ultrapassados. No contexto educativo, essa missão recai sobre os professores, que trabalham em conjunto com os alunos para ultrapassar barreiras e combater discriminações, “discutir, questionar e problematizar são sempre as melhores estratégias até no sentido de aprendermos, todos, a não cometermos os mesmos erros do passado. Quando a representatividade não acontece naturalmente, penso que compete ao professor ter a sensibilidade de a provocar”, explica Ana Cabete.

Por outro lado, o caráter restrito e exclusivo dos programas curriculares pode resultar num desânimo por parte dos jovens face à literatura, para Beatriz Lopes, “quando eles escreveram as suas obras, o público-alvo eram as classes altas (maioritariamente, os homens), o que levanta a questão de ser preciso acrescentar novas obras que, desta vez, sejam dirigidas a nós. Nem precisam de ser obras recentes, em Portugal existiram muitas mulheres e muitas pessoas de cor a contar histórias partindo da sua perspetiva e isso não está retratado no currículo. Possivelmente, seriam leituras muito mais interessantes para a mente de um adolescente”.

Num país onde as estatísticas apontam para um número elevado de pessoas sem hábitos literários, a introdução de novos autores e novas temáticas poderia reverter esta tendência e abrir um caminho mais amplo e diversificado para o universo da literatura. “Penso que há abertura dos professores para rever os programas e tornar as coisas mais fáceis, tem de haver. Não sei se de quem faz os programas existe, mas de quem os aplica e faz a sua gestão creio que há”.

 

Instagram

SPOILER. Theme by STS.