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terça-feira, 28 de junho de 2022

por Matilde Castanho

Ricardo Reis caminha sobre a calçada portuguesa, percorrendo a mesma Lisboa que, dois séculos antes, viu nascer o amor de Blimunda e Baltasar. Cumprimenta, com um breve aceno do chapéu, o velho senhor que intercepta o seu caminho, sem saber que diante de si está Carlos da Maia, outrora um jovem destroçado.

A paisagem que o seu olhar alcança revela-lhe o oceano de onde os portugueses haviam, um dia, partido, preparados para serem imortalizados como heróis de uma epopeia. Contemplando o cenário, pergunta-se se os peixes daquelas águas ainda se recordam das palavras que Santo António lhes dedicou.

Numa sala de aula distante, os livros estão abertos e os protagonistas preparam-se para contar as suas histórias a uma nova geração de estudantes portugueses. Todavia, a questão que se levanta permanece intocável há décadas: onde estão as autoras portuguesas e porque é que não têm lugar nos programas curriculares?


Os Programas e Metas Curriculares elaborados tendo em conta os objetivos de aprendizagem relativos à disciplina de Português – que acompanha os jovens desde o seu primeiro ano de escolaridade até ao 12º - propõem parâmetros pedagógicos específicos no que diz respeito às áreas da oralidade, gramática, escrita e educação literária.

Para além das avaliações obtidas em regime de frequência, os estudantes portugueses são também submetidos às classificações de quatro provas nacionais distintas, durante o seu percurso académico, sendo elas as provas de aferição, no 2º e 8º ano, e os exames nacionais realizados no 9º e 12º.

Na sua totalidade, são nomeados cento e dezoito autores no decorrer da Lista de Obras e Textos que direciona e orienta o padrão referente à leitura. Nomes como Camilo Castelo Branco, José Saramago, Fernando Pessoa e Eça de Queiróz são mencionados frequentemente, devido à sua contribuição e relevância no setor literário português, sendo importante ter em consideração que “os programas escolares e a sua lecionação são a mais importante forma de institucionalização da literatura e da elaboração de uma espécie de cânone de autores clássicos – que são considerados clássicos justamente porque são dados na classe – que são de leitura aconselhada ou obrigatória em vários graus de ensino”, como explica Ana Luísa Vilela, professora na Universidade de Évora, doutorada em Literatura Portuguesa.

Por outro lado, apenas vinte e quatro escritoras do sexo feminino são referenciadas nestes mesmos programas curriculares, o que corresponde somente a 20% do total. Sophia de Mello Breyner e Alice Vieira apresentam uma maior presença, seguidas de Matilde Rosa Araújo, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres e Luísa Dacosta. “Eu lembro-me de chegar à secundária e pensar nessa desigualdade, porque sempre me senti mais atraída por literatura de autoria feminina e tinha de a procurar fora das propostas que surgiam na escola. É triste, enquanto estudantes e mulheres portuguesas, não termos alguém [no programa curricular] com quem nos possamos identificar e que nos possa representar [no mundo literário], confessa Beatriz Lopes ao recordar a sua experiência enquanto aluna de Português.

A ausência de obras de literatura feminina de referência nos currículos da disciplina pode ser explicada por várias razões, entre as quais a distribuição e organização da sociedade portuguesa até ao século XX – que afastava as mulheres do exercício da arte e cultura –; e a existência de critérios patriarcais e obsoletos (conscientes ou não) no processo de seleção e escolha.

“É evidente que a autoria feminina existiu desde sempre, mas também é evidente que a sociedade portuguesa foi – e ainda é – regida por um sistema patriarcal. Isso implica que quem estabelece o cânone privilegie as obras daqueles que têm mais acesso à cultura e com quem se identificam mais. E quem tem mais acesso à cultura, quem sempre teve mais acesso à cultura, foram os homens”, afirma Ana Luísa Vilela, continuando “tanto quem diz que os programas são feitos à luz de uma ideologia patriarcal e tradicionalista, como quem diz que as mulheres não tiveram acesso à cultura, tem razão. Da Idade Moderna para cá, as mulheres mais cultas eram aquelas que estavam livres da tutela masculina, ou por pertencerem ao clero, ou por serem viúvas”.

Para Ana Cabete, professora do Ensino Secundário, “A prevalência de autores masculinos europeus de pele clara reflete a realidade histórica da Europa e, sobretudo, do nosso país. Até ao 25 de Abril de 1974, a larga maioria da população portuguesa era analfabeta, excluindo-se deste analfabetismo sistémico os homens brancos pertencentes a famílias financeiramente privilegiadas. Neste contexto, é natural que a maioria dos autores até ao século XX, selecionados para o programa de Português, sigam este padrão. Já não considero tão consensual a escolha de autores homens e brancos dentro do cânone do século XX e XXI. Por exemplo, a poesia portuguesa atual é escrita maioritariamente por mulheres e esse facto ainda não se reflete nos manuais escolares. O mesmo sucede com as obras escritas por minorias. Como explicar este facto? Conservadorismo e inércia, talvez. Mudar um padrão é um processo lento e moroso”.


Movimentos literários e temas recorrentes nas obras

Várias escolas literárias estão representadas nos programas curriculares. A Era Medieval marca a sua presença através da poesia trovadoresca, dos relatos de Fernão Lopes sobre a vida na Corte portuguesa e das sátiras de Gil Vicente. O período Clássico é estudado em Luís de Camões (Classicismo) e Padre António Vieira (Barroco); e a Era Moderna tem como embaixadores Alexandre Herculano, Almeida Garret e Camilo Castelo Branco, inseridos no movimento do Romantismo, Eça de Queiróz enquanto representante do Realismo, e Fernando Pessoa como cara principal do Modernismo.

A forma como o programa está organizado, apesar de ser lógica e em sequência, relega os escritores atuais para as últimas aulas do ano letivo, quando professores e alunos já estão menos disponíveis e pressionados pelo cumprimento do programa. A este propósito, é óbvio que os programas são de uma ambição desmedida e paralisante e não propiciam qualquer margem para a discussão de outras obras que não as inscritas no rígido cânone. Esse é um dos grandes problemas do ensino, hoje em dia”, reflete Ana Cabete, defendendo que considera que os escritores dos séculos XX e XXI se revelam excelentes oportunidades de partilha e mudança na sala de aula.

A nível de temáticas, é frequente (e quase exclusivo) a ação estar centrada nas classes mais altas das sociedades portuguesas das diferentes épocas. A perda do estatuto de leitura obrigatória d’O Memorial do Convento, por José Saramago, separou os alunos duma narrativa focada em personagens pertencentes ao povo – suas dinâmicas e problemáticas – e, a par com o afastamento de Felizmente Há Luar, por Luís de Sttau Monteiro, resultou na ausência de duas personalidades femininas de grande relevo e importância literária e cultural: Blimunda e Matilde de Melo. “As personagens femininas que nós encontramos ou são retratadas como bruxas, más, o fruto de todo o pecado – numa abordagem totalmente pejorativa -, ou então são personagem sem dimensão nenhuma, que aceitam as condições do seu destino e não procuram evoluir ao longo da história. E essas duas alternativas não servem. Dêem-nos algum crédito, deixem-nos saber as batalhas das nossas antepassadas, dêem-nos alguém para ler que nos vá inspirar a ser uma boa mulher”, propõe Beatriz.

Apesar da qualidade das obras selecionadas não estar em discussão, sabendo que estas são o resultado de um trabalho intelectual e literário de valor inestimável na construção da identidade e cultura portuguesa, a necessidade de ver retratados outros grupos sociais, outros heróis e outros géneros literários mais apelativos às gerações mais novas (como o thriller e a ficção científica) surge várias vezes em conversa. Para Ana Cabete “os escritores, homens brancos e privilegiados, escreviam sobre os conflitos existentes dentro da sua esfera de ação: a sociedade portuguesa era, de facto, estratificada e sem mobilidade social. Perpetua-se, assim, através da literatura, uma ideia equivocada do país e aumenta a distância entre o leitor e as problemáticas abordadas nos textos estudados”.

 

Falta de diversidade nos currículos e consequências

O domínio masculino (branco e heteronormativo) do programa curricular da disciplina de Português faz levantar, entre outras, a questão da representatividade na sala de aula. As realidades temporais distintas, aliadas ao privilégio sistémico de que os autores gozavam, torna frequente a existência de estereótipos e preconceitos nas páginas das obras em estudo.

Em 2021, a investigadora Vanusa Vera-Cruz Lima chamou à atenção para a existência de passagens de teor racista n’Os Maias, livro publicado em 1888, recomendando que a leitura em sala de aula devia, por isso, incluir um comentário de teor pedagógico que tenha como objetivo desconstruir e contextualizar os excertos em questão. “Nós devemos ler as obras tendo em atenção o contexto em que foram escritas, mas numa aula de adolescentes – ou pré-adolescentes – é difícil de explicar que não há reflexos de preconceitos, quando os há. Não podemos julgar o passado com os valores do presente, mas é evidente que devemos dizer aos alunos que estejam atentos. A arte deve ser observada com olhos estéticos: contextualizando-a, compreendendo-a e sabendo que o presente está mais adiantado que o passado e, por isso, podemos não ser censores, mas paternalistas”, defende Ana Luísa Vilela.

A representatividade é atualmente discutida em larga escala como sendo um fator essencial na educação dos jovens, com grandes companhias mediáticas a fazerem alterações nos seus conteúdos e colocarem avisos de gatilho quando certos limites são ultrapassados. No contexto educativo, essa missão recai sobre os professores, que trabalham em conjunto com os alunos para ultrapassar barreiras e combater discriminações, “discutir, questionar e problematizar são sempre as melhores estratégias até no sentido de aprendermos, todos, a não cometermos os mesmos erros do passado. Quando a representatividade não acontece naturalmente, penso que compete ao professor ter a sensibilidade de a provocar”, explica Ana Cabete.

Por outro lado, o caráter restrito e exclusivo dos programas curriculares pode resultar num desânimo por parte dos jovens face à literatura, para Beatriz Lopes, “quando eles escreveram as suas obras, o público-alvo eram as classes altas (maioritariamente, os homens), o que levanta a questão de ser preciso acrescentar novas obras que, desta vez, sejam dirigidas a nós. Nem precisam de ser obras recentes, em Portugal existiram muitas mulheres e muitas pessoas de cor a contar histórias partindo da sua perspetiva e isso não está retratado no currículo. Possivelmente, seriam leituras muito mais interessantes para a mente de um adolescente”.

Num país onde as estatísticas apontam para um número elevado de pessoas sem hábitos literários, a introdução de novos autores e novas temáticas poderia reverter esta tendência e abrir um caminho mais amplo e diversificado para o universo da literatura. “Penso que há abertura dos professores para rever os programas e tornar as coisas mais fáceis, tem de haver. Não sei se de quem faz os programas existe, mas de quem os aplica e faz a sua gestão creio que há”.

 

sábado, 23 de abril de 2022

 por Matilde Castanho

“Vamos acabar com o Estado a que chegámos” – a célebre frase proferida pelo capitão de abril, na madrugada da Revolução dos Cravos, adorna a entrada da Casa da Cidadania Salgueiro Maia, em Castelo de Vide, dando-nos as boas-vindas ao museu que honra uma das principais figuras do Dia da Liberdade. 


Instalada no interior do Castelo de Castelo de Vide, a Casa da Cidadania Salgueiro Maia nasce de uma parceria entre a Câmara Municipal de Castelo de Vide e a Direção Regional de Cultura do Alentejo, cumprindo o desejo expresso pelo militar, natural da vila alentejana.

“Declaro que, por minha morte (…) deixo todos os meus bens à Câmara Municipal de Castelo de Vide, para a respetiva Assembleia Municipal investir num projeto cultural” – Salgueiro Maia, 1989

Com as palavras “liberdade”, “democracia” e “revolução” evidenciadas no decorrer da exposição, o espaço manifesta, declara e comemora os seus dois protagonistas em evidência: Fernando José Salgueiro Maia e os princípios democráticos que estão intrínsecos ao 25 de abril.



O espólio em exibição permite aos visitantes do museu conhecer mais sobre a vida de Salgueiro Maia, entrando em contacto com elementos e itens de diversas fases da sua vida, como a infância, entrada na vida militar, guerra colonial, papel durante a Revolução de Abril e vivências no período pós-revolução.

Enquanto lemos sobre a entrada do eterno símbolo da democracia portuguesa no Movimento dos Capitães, no ano de 1973, ouvem-se as suas declarações, reproduzidas em vídeo, ecoar pelo corredor: “O mensageiro tem de sair imediatamente. Ou então o quartel será destruído”. Inscritas na legenda do expositor, as palavras são claras, “vão reunindo apoios e elaborando o plano para derrubar o regime (…) pela primeira vez, o capitão sabe que está a combater do lado certo”.



De todas as peças expostas, aquelas que mais carregam simbolismo não podiam deixar de ser a famigerada farda, que o capitão envergou nos acontecimentos do dia 25 de abril de 1974, e o megafone com que decretou o cerco ao Quartel do Carmo, em Lisboa, e obrigou à rendição do Presidente do Conselho do Estado Novo.

Assumindo-se como um espaço que retrata episódios recentes da história nacional, a Casa da Cidadania Salgueiro Maia pretende celebrar a liberdade e a democracia, colocando o holofote sobre um “filho da terra”, que desempenhou um papel fundamental na construção dos valores de abril.


Um espaço que faz deferência à identidade e à história portuguesas e homenageia devidamente uma das maiores e mais marcantes figuras contemporâneas portuguesas.

Casa da Cidadania Salgueiro Maia

De terça-feira a domingo | 9h15 – 12h45 & 14h15 – 16h45

segunda-feira, 7 de março de 2022

por Matilde Castanho

Alice Neto de Sousa é o novo fenómeno da poesia portuguesa. Convidada regular do programa «Bem-Vindos», da RTP África, viu o seu poema «Poeta» tornar-se viral nas redes sociais, no início deste ano. Afirma-se como «inquieta por natureza, nas palavras e nas escolhas» e conta-nos que, atualmente, devota o seu tempo a pensar sobre questões sociais e a escrever às prostitutas do metro do Martim Moniz. Falámos com a poeta sobre as suas inspirações, os seus objetivos e as repercussões da sua popularidade na internet.


Fotografia de André Ferreiro | @andre.ferreiro


És bastante assertiva na utilização do tema «poeta» e não «poetisa». Há alguma razão?

Alice Neto de Sousa: Há, apesar de existirem pessoas que não se importam com o termo «poetisa». É um posicionamento meu, porque para mim é uma questão do carácter pejorativo que existe associado ao termo, até historicamente. Pegando no exemplo da Florbela Espanca, que me é mais caro – ela, na sua altura, era chamada poetisa. Mas ela era poeta, então o termo era uma forma de diminuir o que ela era. Para mim, é importante que seja «poeta».


Lembras-te da tua primeira experiência com a escrita - tanto poesia, como prosa?

Alice: Passei pela prosa, não escrevo só poesia. O que me lembro de mais interessante, na minha experiência com a prosa, foi um conto, algures no secundário. Criei um conto chamado «Acredites ou Não», era uma espécie de história de terror, em que as personagens morriam todas e tudo mais. Acabei por fazer também o «Acredites ou Não 2». É das memórias mais recentes de escrever algo em prosa.


Quando é que percebeste que a poesia ocupava um lugar especial no teu coração?

Alice: Não sei, sabes… porque a prosa está quase sempre presente no meu dia-a-dia, também. Eu sinto que a poesia me sai mais natural. É o espaço em que me sinto mais confortável para expressar o que estou a sentir. No entanto, nunca excluí a prosa da minha vida.


Em que momento é que percebeste «eu SOU poeta»?

Alice: Na minha cabeça, mais do que «escrever poesia», eu sou mesmo poeta. Nunca houve um gatilho, sempre foi assim, porque ser poeta não é só pegar num papel e escrever com a caneta e estar ali, em frente à folha. Ser poeta implica todo um leque de atividades anterior à escrita: sentir, pensar o mundo, contemplar, ver… e só depois escrever. Fui sempre formatada para primeiro pensar-me como poeta e só depois dizer que escrevo poesia. 


Há algum tema que sintas que flui mais naturalmente na hora de escrever um poema?

Alice: Depende, acho que os temas me vão encontrando tendo em conta as fases da vida em que estou, o que é que estou a pensar naquela altura… E às vezes até me apanham de surpresa. É mesmo uma questão de estar no mundo e estar a existir. Acho que, possivelmente, agora onde tenho procurado mais inspiração, mais do que no meu interior, é no quotidiano. Tenho pegado mais e reparado mais na cidade de Lisboa, por exemplo, ou nas prostitutas do metro do Martim Moniz, por passar por elas várias vezes. 

Diria mesmo que o que me tem «puxado» neste momento são as banalidades do dia-a-dia, que não são bem banalidades, porque o quotidiano dá-nos muito para expressar o que estamos a sentir interiormente. 

No entanto, eu posso escrever sobre qualquer tema. Se eu sentir que preciso de escrever um poema de amor, eu escrevo um poema de amor. Também as questões sociais são um tema sobre o qual me quero debruçar mais, de uma forma mais consciente.


A poesia para ti é uma forma de terapia?

Alice: Depende… escrever é para mim um momento importante para a minha autorrevelação emocional. É uma maneira que eu tenho de gerir e pensar o mundo. Se é terapêutico? Eu acho que se, por exemplo, uma conversa com uma amiga te fizer sentir bem, não vais questionar se é algo terapêutico – é uma conversa. E um poema é um poema. E a poesia é um espaço onde me sinto bem.


O que é que na Florbela Espanca te encantou?

Alice: Eu não sei se quem me inspira é mesmo a Florbela Espanca, ou o Livro de Mágoas da Florbela Espanca. Aquilo que me fez sentir uma identificação natural por esse livro foi o facto de o ler numa altura em que ainda não sabia muito bem que podia fazer isso – transformar a dor em verso e pegar no que estava a sentir e dar-lhe uma expressão poética.

Quando leio a Florbela Espanca, ela faz isso de uma forma bastante natural. Apesar de talvez um pouco mais melancólica, toda a escrita da Florbela espelhava aquilo que estava a sentir no momento em que peguei no livro. A partir daí, não só me identifiquei e li o livro muitas vezes, mas também pensei «eu acho que consigo fazer isto». 


Fotografias de André Ferreiro | @andre.ferreiro


Como foi o processo de encontrares quem eras – e qual era a tua mensagem – enquanto poeta?

Alice: A minha voz está sempre em construção, eu estou numa eterna procura e até deixo que isso seja um processo mais inconsciente, porque nós estamos sempre a mudar e é difícil definir. Não posso dizer «agora a minha voz vai ser esta», nós vamos sendo moldados pelas situações e pelos momentos onde estamos. 
Esse processo não é algo que eu faça de um modo tão racional assim. Descobrir a nossa voz é consequência de estar no mundo.


Que característica dirias ser necessária existir nos poetas?

Alice: É engraçado (risos)… eu não tenho a fórmula para se ser poeta, não faço ideia! Para mim, o mais importante é sentir – não sei se todos pensam assim, mas é o meu ingrediente fundamental, nessa receita que não existe.


Depois da declamação do teu poema «Poeta» ter ficado viral, qual foi a reação que mais te tocou por parte do público?

Alice: Aquilo que eu não estava à espera que acontecesse foi o poema ter ganho uma grande expressão nas crianças e nas pessoas mais novas. Eu não estava nada a contar com isso! Recebi relatos de mães que punham os filhos a fazer ditados do poema, recebi convites de escolas, para os visitar e falar com os alunos, porque estavam a trabalhar com o poema (a transcrevê-lo, a traduzi-lo…). 

Falei com professores de Português, que me pediam para ir às suas aulas, porque «a poesia tinha ganho uma nova roupagem» e eles queriam motivar os alunos a pensar no tema particular do poema e no palco que a poesia tem. E eu tenho feito entrevistas e aceitado convites, por achar que é importante frisar que neste momento o foco esteve na poesia e essa reação vai ser sempre aquilo de que me vou lembrar. De repente, existe uma esperança na poesia e ela vem dos mais novos. Acredito que deste fenómeno nascerão poetas muito interessantes e isso deixa-me com uma grande felicidade.


Como observas a relação entre o significado que tu colocaste no teu poema e o significado (diferente) que o leitor coloca nas mesmas palavras? Sentes que essa pessoalidade é necessária na poesia?

Alice: Sim! E por isso é que eu não gosto de explicar muito, porque as pessoas agora querem secar um poema e isso tem pouco interesse, sabes? O poema significa algo para mim, mas esse algo não está escancarado: essa é uma parte importante de escrever poesia, deixo sempre um espaço de interpretação à outra pessoa, para ela poder encontrar lugar para ela. 

Por isso é que um poema consegue tocar muita gente, por ser pessoal, mas abrangente o suficiente. Quando escrevemos algo que não é só para nós, temos de deixar espaço para a identificação, e em específico no caso do «Poeta», que toca dores comuns de várias pessoas.


Existe muito a noção que a “boa” poesia tem de ser difícil de compreender. O que dizes às pessoas que sentem que não têm lugar na poesia por causa dessa ideia errada?

Alice: A poesia tem várias faces e pode ter essa face. Eu tenho alguns poemas, que são muito pequenos e muito intrincados, e às vezes as minhas irmãs até me dizem «não percebi nada!» (risos). Porque o objetivo também é esse! E a poesia, podendo ter este lado, é uma faceta interessante de ser explorada por um poeta. 

Podemos ter momentos em que queremos mascarar o que estamos a sentir – e é interessante à mesma -, mas existe um lado na poesia em que aquilo que dizemos é muito mais oral e muito mais claro, simples e nítido. E é importante puxarmos por essa vertente também.
Temos que dar a conhecer todas as faces da poesia, até porque há pessoas que não se identificando com uma, encontrarão lugar na outra. O mais importante é que percebam que existe espaço para quem quiser sentir a poesia.


Quais são os teus objetivos para o futuro?

Alice: Sinto-me a crescer em céu aberto, com toda a gente a ver o que estou a fazer e isso é assustador e interessante! O meu objetivo principal deste ano é pensar as questões sociais como poeta e dizê-las. Não tanto publicar; apesar de estar a receber alguns convites de publicação, esse não é, ainda, o objetivo. É dizer, falar com as pessoas, inquietar com aquilo que também me inquieta. 

Acho que é um caminho importante, porque passamos muito despercebidos no que está a acontecer à nossa volta e há problemas que merecem ter voz e serem pensados. 
Fora dos olhos do público, continuarei sempre a escrever poesia, porque a poesia não é bem um objetivo em si. É uma forma de estar na vida, um propósito. 




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